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febrero 09, 2016

«As interfaces do ato de alfabetizar: elementos para a análise dos enunciados sobre a construção dos saberes docentes»



Sônia de Fátima Radvanskei e Regina Cely de Campos Hagemeyer
«Possibilidades e influências da formação continuada na construção da docência de professoras alfabetizadoras de Araucária/PR: uma análise dialógico-responsiva»

Práxis Educativa, vol. 11, n.º 1, jan. - abr. 2016

Práxis Educativa | Universidade Estadual de Ponta Grossa | Programa de Pós-Graduação em Educação | Campus Uvaranas | Ponta Grossa | Pernambuco | BRASIL


Extracto del apartado en páginas 279 a 282 del artículo en PDF




«Diante da complexidade do ato de alfabetizar, cabe destacar que o professor alfabetizador, além das funções que exerce, é um professor de Língua Portuguesa, que utiliza diversas formas e gêneros textuais como objeto de ensino. Em sua prática e estratégias pedagógicas, é essencial que ele domine os conhecimentos necessários às compreensões sobre como essa linguagem processa-se, desenvolve- -se e constrói-se, notadamente com relação às apreensões dos alunos desde o primeiro ano escolar. Nessa perspectiva, a formação continuada é entendida como um espaço de aprendizagem para o desenvolvimento da profissionalização docente, compreendida por Mizukami (2004) e Marcelo Garcia (1999), os quais apresentam visões congruentes em suas pesquisas.

»Mizukami (2004) refere-se aos conhecimentos de processos de aprendizagem e de desenvolvimento profissional da docência a partir das considerações de Shulman (1986) sobre seu Paradigma perdido. [NOTA 2] Diante de vários programas investigativos, que nortearam os caminhos para as pesquisas sobre as mediações dos professores em suas áreas de ensino, Shulman (1986) destacou que não se aprende a partir da experiência propriamente dita, mas da reflexão que se realiza a partir e sobre ela. O autor referiu-se, ainda, à necessidade de analisar os processos de ensino e aprendizagem desenvolvidos pelos professores, a partir do que considerou um Paradigma perdido, ou que não eram levados em consideração nos vários programas de pesquisa sobre a atuação dos professores em suas áreas de ensino.

»Para Shulman (1986), importava pesquisar a relação orgânica com o conhecimento de referência, e que é a fonte de exemplos, explicações e formas de lidar com os erros e as dificuldades dos alunos. Dessa forma, o autor investigou o que os professores sabem sobre os conteúdos e os processos de ensino, em que cursos e como adquiriram esses conteúdos, como e por que se transformam ao participar dos processos de formação e como são utilizados em sala de aula.

»Shulman (1987, p. 14), ao teorizar sobre a ideia de compreensão, enfatizou que “[...] ensinar é antes de tudo compreender”. Ao pesquisar os processos de ensino que os professores desenvolviam, Shulman (1986, p. 8) afirmou que seu objetivo era o de “[...] traçar a biografia intelectual do professor: o conjunto de saberes, concepções e orientações que constituem a fonte de sua compreensão sobre os assuntos que ensinam”. Nesse sentido, ele reafirmou a valorização das compreensões dos professores, afirmando que, ao verbalizar sobre os processos de ensino, os professores evidenciam essas compreensões, ultrapassando o trabalho com os conteúdos curriculares, ao construir conhecimentos sobre novas formas de ensinar, diante de diferentes níveis, necessidades e formas de apreensão dos alunos.

»Nesse sentido, as mudanças propostas aos processos de alfabetização das redes de ensino, a partir de meados dos anos 2006, principalmente com relação à proposta do Ensino Fundamental de 9 anos, levaram os alfabetizadores à necessidade de retomar, compreender e dominar os conceitos e os conhecimentos linguísticos da alfabetização e com relação ao letramento, para dar conta de uma nova estruturação do ensino na alfabetização, com implicações para a escolarização, indo além em seu papel docente, como definiu Shulman (1986).

»A implementação da proposta já referida pelas Secretarias de Educação, mesmo que não suficientemente discutida pelos(as) alfabetizadores(as) quanto à sua justificativa e às suas necessidades, desencadeou, como já se referiu, programas de formação continuada, nos quais o ponto central volta-se a uma retomada da concepção de letramento, como questão preponderante na alfabetização.

»Segundo Soares (2004), o letramento é uma extensão e complemento da alfabetização e refere-se à condição de quem sabe ler e escrever, utilizando-o no exercício das diferentes práticas sociais. Alfabetização e Letramento interpenetram- -se e compõem um processo não apenas de aquisição do código, mas também de interações e relações que esse código propicia.

»Na pesquisa realizada, as professoras expressaram a busca por práticas que acreditavam “dar certo”, deixando de lado, por vezes, o significado e o compromisso de alfabetizar e formar gerações verdadeiramente letradas. A importância do conceito letramento tem sido o investimento em processos de formação continuada que leve boa parte dos alfabetizadores a diversificar suas práticas, seus planejamentos e suas atitudes relacionando o processo pedagógico da alfabetização com a prática social.

»Na escola, o letramento pode ser visto como um conceito ético-político, pois formar sujeitos letrados é abrir a possibilidade da entrada de outras vozes em sua vida: modos de encarar, entender e atuar na sociedade. Ao entrar em contato de forma sistematizada com diferentes textos, os sujeitos descobrem informações relevantes e levantam hipóteses sobre a linguagem escrita, tornando-se capazes de usar a língua, em diferentes situações sócio-discursivas. As alfabetizadoras enunciaram a consciência sobre seu papel, que as têm levado a ultrapassagens quanto à sua função de levar os alunos a apropriarem-se da leitura e da escrita e a construir o letramento.

»Marcelo Garcia (1999) refere-se ao desenvolvimento profissional como evolução e continuidade, processo que define como objeto da formação docente. Ele define a formação dos professores como:

»[...] a área de conhecimentos, investigação teóricas e práticas que, no âmbito de Didáctica e da Organização Escolar, estuda os processos através dos quais os professores – em formação ou exercício – se implicam individualmente ou em equipe, em experiências de aprendizagem através das quais adquirem ou melhorem os seus conhecimentos, competências e disposições, e que lhes permite intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu ensino, no currículo e da escola, com o objectivo de melhorar a qualidade da educação que os alunos recebem. (Marcelo Garcia, 1999, p. 26).


»Kramer (2010) discute a urgência em superar as dicotomias ou as cristalizações com que o trabalho pedagógico vem sendo realizado, considerando que, “[...] enquanto prática social, a prática pedagógica é rica, complexa, contraditória” (Kramer, 2010, p. 57). A autora refere-se, ainda, à tentativa de resgatar esse seu caráter dinâmico, tornando possível dar conta da multiplicidade de aspectos nela envolvidos, tanto nas dificuldades quanto nos dilemas enfrentados pelos profissionais da escola.

»O saber docente revela uma dilapidação dos conhecimentos tidos como interiores ao professor, no encontro com a exteriorização desses saberes por meio da prática profissional. Assim, na perspectiva de Maldonado (2002), com base nas concepções de Agnes Heller (2000), o sujeito apropria-se dos heterogêneos saberes sociais contidos na vida diária, no seu cotidiano.

»Dessa forma, não cabe classificar os saberes docentes, mas entender os processos de apropriação desses saberes e sua utilização no exercício da docência. Nesse sentido, os saberes docentes são considerados pela autora como “pluriculturais, históricos e socialmente construídos” (Maldonado, 2002, p. 36).

»Por essa razão, os saberes docentes não implicam somente processos cognitivos individuais, mas formam parte do processo histórico social e cultural local, na relação cotidiana entre professores e alunos. Propõe-se, a seguir, expor os procedimentos metodológicos e os resultados preliminares da pesquisa.



[NOTA 2]

»A expressão “Paradigma perdido” foi utilizada por Shulman (1987) quando ele analisou o panorama das pesquisas sobre os professores, a partir de 1980, caracterizando as pesquisas voltadas aos resultados do ensino e outras análises externas ao ensino, como uma trivialização dos processos da docência. Ao definir o “paradigma perdido”, o autor propõe a busca de categorizações para analisar as práticas dos professores, o que não se evidenciava na pesquisa, desvalorizando a profissão docente.



[Referências]

»HELLER, A. O cotidiano e a História. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

»KRAMER, S. Alfabetização, leitura e escrita: formação de professores em curso. São Paulo: Ática, 2010.

»MALDONADO, R. M. Los Saberes docentes como construcción social. La enseñanza centrada em los niños. México: Fondo de Cultura Econômica, 2002.

»MARCELO GARCIA, C. Formação de professores: para uma mudança educativa. Lisboa: Porto, 1999.

»MIZUKAMI, M. G. N. Aprendizagem da docência: algumas contribuições de L. S. Shulman. Revista Educação, Santa Maria, v. 29, n. 2, jul./dez. 2004.

»SHULMAN, L. S. Knowledge and teaching: foundations of the new reform. Harvard Educational Review, v. 57, n. 1, p. 1-22, 1987. DOI: 10.17763/haer.57.1.j463w79r56455411

»SHULMAN, L. S. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational Researcher, v. 15, n. 2, p. 4-14, 1986. DOI: 10.3102/0013189X015002004

»SOARES, M. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 25, p. 5-17, jan./abr. 2004. DOI: 10.1590/S1413-24782004000100002»






febrero 02, 2016

Análisis Político del Discurso (APD): «Aceptación de las diferencias particulares y una concepción abierta y plural»



Hernán Fair
«Análisis político del discurso de Ernesto Laclau: una propuesta para la investigación social transdisciplinaria»

Íconos. Revista de Ciencias Sociales, vol. 20, n.º 54, 2016

Íconos. Revista de Ciencias Sociales | Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO), Sede Ecuador | Quito | ECUADOR


Extracto de páginas 200 y 220-221 del artículo en PDF




«Una pluralidad de estudios han señalado los problemas teóricos, metodológicos, epistemológicos y normativos de la teoría de la hegemonía de Ernesto Laclau. Sin embargo, son escasos los intentos de brindar una respuesta propositiva a estos déficits y limitaciones, contribuyendo a construir una teoría sistemática y una metodología concreta para el análisis político del discurso y para el desarrollo de un programa de investigación social desde nuestra región.

»El siguiente trabajo aporta algunos recursos teóricos para contribuir a sortear este problema, a partir de una propuesta de articulación transdisciplinaria que examina una serie de herramientas afines provenientes de la semiótica social, el psicoanálisis lacaniano, la teoría social contemporánea, la psicología social y la teoría neomarxista.

»Se sostiene que una cuidadosa incorporación de estas herramientas puede contribuir a complejizar y aumentar la capacidad heurística de la perspectiva de Laclau desde la dinámica política, fortaleciendo su capacidad operativa para el análisis sociopolítico y crítico en Ciencias Sociales.

»[...]


»A modo de (no) conclusión

»Desplegamos en este trabajo una propuesta de articulación transdisciplinaria tendiente a complejizar y reforzar el plano teórico-metodológico y normativo de la perspectiva de Laclau, con el objetivo de contribuir al desarrollo de un programa de investigación social sobre la teoría de la hegemonía, desde nuestra región.

»Mediante el desarrollo de esta propuesta, se ha procurado abrir el debate y estimular la necesaria discusión teórica, metodológica, epistémica y política, con el objeto de fortalecer la capacidad heurística y la validez operativa de las herramientas de la teoría discursiva de la hegemonía para el análisis de los procesos políticos contemporáneos, sin perder de vista el objetivo de transformación radical del orden vigente.

»No debemos olvidar, en ese sentido, que la teoría de la hegemonía de Laclau se inscribe en el marco de una concepción posfundacional y posmarxista, que pretende cuestionar tanto a las perspectivas esencialistas, objetivistas, racionalistas y universalistas, como a las visiones relativistas, idealistas y ultraparticularistas. En ese sentido, el objetivo de construir una metodología rigurosa, útil y válida para el Análisis Político del Discurso (APD), no puede perder de vista la inherente dimensión crítica y la meta socialmente transformadora.

»Reconociendo la existencia de esta dimensión en el transcurso de la obra de Laclau, aunque atenuada en los trabajos de su última etapa, destacamos la necesidad de radicalizar, extender y hacer explícita la crítica radicalizada en clave posmarxista, a partir de lo que definimos como una izquierda posfundacional.

»Desde la propuesta del presente trabajo, ello implica profundizar el desarrollo teórico y ético-político en torno a dos ejes centrales para el análisis político, que además permiten delimitar analíticamente su propio campo de investigación.

»En primer lugar, frente a las posturas relativistas y posmodernas del “todo vale”, se sostuvo que el APD debe retomar la crítica ideológica del marxismo, cuestionando radicalmente las formas de explotación y opresión social sobre los sectores subalternos en el capitalismo actual. Sin embargo, a diferencia de las concepciones de Análisis Crítico del Discurso (ACD), lo debe hacer desde lo que Laclau definió como una crítica “intra-ideológica”, que asume la existencia de verdades relativas, precarias y contingentes, que se sostienen en un “medio-decir”. Ello implica asumir una perspectiva epistémica basada en la objetividad parcial y relativa del conocimiento, que trasciende tanto las concepciones objetivistas y fundacionales, como las puramente subjetivistas y anti-fundacionales.

»En segundo término, el APD debe mantener un objetivo ético-político contra-hegemónico que, siguiendo la herencia transformadora del marxismo, trascienda la mera crítica y negatividad al orden vigente, para construir una praxis política y social alternativa. Ello supone ir más allá de la mera crítica ontológica de las perspectivas de ACD, la filosofía posmoderna y las teorías deconstructivas, para oponer una estrategia política contra-hegemónica, vinculada a la lucha por la igualdad social y la emancipación humana.

»El APD, sin embargo, se inscribe en el marco de una perspectiva posfundacional, alejada de todo fundacionalismo objetivista, esencialista y universalista. En dicho contexto, el objetivo radicalmente democratizador y emancipador debe resguardar como premisa básica la aceptación de las diferencias particulares y conservar una concepción abierta y plural.

»Desde el nivel estrictamente metodológico (aunque anudado a la dimensión ético-política), el programa de investigación debe reconocer la inherente dimensión relativa, precaria, parcial y contingente del conocimiento. Ello implica la necesidad de mantener y estimular una posición de autocrítica permanente y de apertura mental para la reformulación teórica, metodológica y normativa de sus aspectos atribuidos como más problemáticos, en estrecha relación con las transformaciones histórico-políticas e intelectuales que se van presentando en la dinámica sociopolítica. De este modo, se evita el riesgo de asumir una postura dogmática, esencialista o fundamentalista, contraria a sus premisas teóricas, normativas y ontológicas.»






enero 19, 2016

«A transformação social nos discursos da cena empreendedora social brasileira: processos comunicacionais e regimes de convocação na mídia digital»



Vander Casaqui
«A transformação social nos discursos da cena empreendedora social brasileira: processos comunicacionais e regimes de convocação na mídia digital»

Universitas humanística, n.º 81, 2016.

Universitas humanística | Pontificia Universidad Javeriana | Facultad de Ciencias Sociales | Departamentos de Antropología y Sociología | Bogotá | COLOMBIA


Extracto de los apartados en páginas 208-212 y 218-222, más bibliografía, del artículo en PDF




«Comunicação, inovação social e novas perspectivas do empreendedorismo

»A proposta de tematização das “práticas comunicativas, criatividade e novos desafios” feita para esta edição da Revista Universitas Humanística nos direciona à observação da cena empreendedora social a partir desses eixos. Como práticas comunicativas, entendemos a leitura do empreendedorismo social a por meio dos discursos que constituem e caracterizam as atividades das organizações, dos agentes de seu campo, em plataformas midiáticas como a internet, como é o caso desse estudo. Nesse sentido, vemos que a emergência do conceito de empreendedor social é um processo essencialmente comunicacional. Esse processo é baseado na elaboração de uma forma de nominalização que, por sua vez, vai gerar novas práticas, mas também vai transformar os significados e denominações de tantas outras que existiam anteriormente e passam a ser identificadas por esse conceito. Como defende Fairclough (2001, p. 227): “a nominalização transforma processos e atividades em estados e objetos, e ações concretas em abstratas”. Apoiamo-nos na abordagem da análise crítica do discurso de Fairclough para compreender como práticas sociais e discursivas se conectam e interinfluenciam, especialmente em cenários de transformação, de mudança social, nos quais o autor localiza sua perspectiva analítica.

»A noção de ‘criatividade’ pode parecer pouco evidente em uma primeira leitura, mas está intrinsecamente relacionada com nosso objeto. O empreendedorismo social está articulado com a noção de inovação social, que por sua vez representa a criatividade aplicada à concepção de soluções para os problemas sociais –percebidos como oportunidades para novos projetos. A inovação social faz parte de uma mesma rede semântica, de uma constelação de termos originados nas práticas do mercado capitalista, que ganham novos significados quando acompanhados do termo ‘social’. Dessa forma, inovação, negócio, economia, entre outros termos, ao se tornarem ‘sociais’, são aproximados da noção de bem comum, de algo cujo objetivo final seria a contribuição a melhorias na sociedade, e não o lucro, que está na base da economia capitalista.

»A ideia de uma sociedade aberta às iniciativas de qualquer cidadão, que seja capaz de perceber uma oportunidade e articular a partir daí um negócio, de propor alguma mercadoria ou serviço que inove dado mercado e conquiste novos consumidores, compõe a mítica do self made man. Toda uma cultura baseada na concorrência e legitimada pelo discurso da meritocracia se sustenta nessa ideia da oportunidade para ‘qualquer um’ –o que não quer dizer ‘para todos’, como lembra um personagem do filme No, de Pablo Larraín (2012), sobre o plebiscito que decidiu pelo fim da era do ditador chileno Augusto Pinochet no poder, no ano de 1988.

»O self made man seria o herói da cultura capitalista, o destruidor criativo identificado por Schumpeter (1961), ainda nas primeiras décadas do século XX. Inovação e negócio são partes de um mesmo processo do capitalismo, em que o empreendedor é figura chave. No âmbito desta pesquisa, os novos desafios (o terceiro termo evocado pela temática da revista) estão associados ao discurso que desloca o empreendedor para a resolução de problemas sociais, com maior eficácia e alcance que as iniciativas do Estado (ou Primeiro Setor) e que as tradicionais organizações identificadas com o chamado Terceiro Setor (organizações não governamentais, misericórdias, entidades filantrópicas, de caridade e voluntariado). A prática empreendedora de mercado, com o objetivo de transformar o mundo, une a performance técnica com a vocação para o bem comum. O Segundo Setor, que abriga a iniciativa privada, serve como modelo ideal da técnica adotada para resolver problemas sociais.

»As práticas comunicacionais são centrais para legitimar e difundir o conceito de empreendedorismo social na sociedade, na busca de seu campo por reconhecimento, poder simbólico e capital social (Bourdieu, 2009). Os agentes do campo investem na entrada em cena midiática, desde a mídia digital até espaços na mídia tradicional (especialmente em programas de caráter jornalístico), para defender seu lugar autêntico e a importância de sua atuação na teia social. A inovação empreendedora passa a ser inovação social; o processo de conceber projetos, ideias, de viabilizá-los por meio de planos de negócios (também entendidos como ‘sociais’), é a atividade criativa gerada pelo mercado capitalista, agora dedicada ao novo desafio de ‘mudar o mundo’. Conforme definição apresentada pela Escola Design Thinking, sediada em São Paulo, capital:

»“Inovação social é uma nova solução para um problema social que é mais eficaz, eficiente e sustentável que as soluções existentes ou que cria valor para a sociedade como um todo, em vez de somente para um indivíduo ou organização privada.” (Stanford Social Innovation Review, s.d.)


»A atividade do empreendedor social pressupõe uma lógica de mercado. Diante da falência do Estado Social, considerada a realidade de países como os da Comunidade Europeia; ou da inexistência histórica desse Estado de Bem-Estar Social (Wellfare State) em países chamados ‘em desenvolvimento’ (como é o caso do Brasil), o empreendedor social é situado retoricamente como alternativa à incapacidade dos governos de sanar os problemas sociais que afligem a população, ou das iniciativas históricas da sociedade civil, como as instituições de caridade, filantrópicas e de voluntariado. O discurso da eficácia, da performance técnica do empreendedor é posicionado como um marco, um tipo de revolução na forma de tratar as questões sociais. É interessante destacar que, apesar de haver um discurso universalizante padronizador do perfil do empreendedor social, seu campo de atuação se articula localmente e seus significados são demarcados por questões econômicas, culturais e históricas específicas.

»No contexto de Portugal, lugar que abrigou o início dessa pesquisa de pós-doutoramento, a atividade empreendedora social serve como resposta, certo antídoto que alia estratégias argumentativas e o exemplo de algumas práticas bem sucedidas, a todo um cenário de crise que atinge gravemente esse país. Uma crise, especialmente dramática em relação à falta de postos no mercado de trabalho, que ultrapassa as questões econômicas para atingir a autoestima da população, as perspectivas de futuro, as apostas na capacidade de Portugal encontrar saídas e se reerguer. Como diz a pesquisadora portuguesa Mónica Lopes, o empreendedorismo, em suas diversas facetas, transformou-se na “panaceia que solucionará os graves problemas do desemprego desencadeados pela crise”, por meio de formas de apoio à inovação e aos chamados “autoempregos” gerados por novos negócios, bem como, supostamente, “atenuará os impactos da crise através das iniciativas solidárias do microempreendedorismo, do empreendedorismo social e do empreendedorismo económico solidário” (Lopes, 2012, p. 87).

»Em sua obra clássica sobre o processo histórico de constituição da economia capitalista de mercado, intitulada A grande transformação (editada pela primeira vez em 1944), Polanyi define economia de mercado. Em suas palavras:

»“Uma economia de mercado significa um sistema autorregulável de mercados, em termos ligeiramente mais técnicos, é uma economia dirigida pelos preços do mercado e nada além dos preços do mercado. Um tal sistema, capaz de organizar a totalidade da vida econômica sem qualquer ajuda ou interferência externa, certamente mereceria ser chamado de autorregulável. Essas condições preliminares devem ser suficientes para revelar a natureza inteiramente sem precedentes de tal acontecimento na história da raça humana.” (Polanyi, 2012, p. 45)


»No campo do empreendedorismo social, é recorrente o discurso sobre a necessidade da sustentabilidade econômica dos projetos, o que remete diretamente à questão da autorregulação– se não de um mercado tradicional, de um mercado de ideias, conforme discute Angenot (2010). Ideias para resolver problemas sociais devem se adequar à lógica neoliberal, pois os projetos precisam afirmar, de forma recorrente, a capacidade sustentável de suas operações. O modelo de negócios é o fator predominante na avaliação de um empreendimento social; os projetos são adequados para atuar em um mercado, mesmo que social, para disputar com outras propostas. A competitividade se faz presente nos inúmeros concursos voltados para o apoio ao empreendedorismo social.

»Esta realidade sugere que as verbas destinadas à ação sustentável estão reservadas para os projetos mais adequados à combinação entre resolução de problemas sociais e plano de negócios eficaz –muitas vezes com a predominância deste último para definição dos ‘vencedores’. Polanyi sinaliza a passagem dessa vertente econômica liberal a um sistema de crenças, a um credo liberal que ainda alimenta a leitura do livre mercado como a tábua de salvação da humanidade:

»O liberalismo econômico foi o princípio organizador de uma sociedade engajada na criação de um sistema de mercado. Nascido como mera propensão em favor de métodos não burocráticos, ele evoluiu para uma fé verdadeira na salvação secular do homem através de um mercado autorregulável. Um tal fanatismo resultou do súbito agravamento da tarefa pela qual ele se responsabilizara: a magnitude dos sofrimentos a serem infligidos a pessoas inocentes, assim como o amplo alcance das mudanças entrelaçadas que a organização da nova ordem envolvia.” (Polanyi, 2012, p. 151)


»Nos discursos que representam o campo do empreendedorismo social, está implícita a fé na capacidade de um tipo de “mercado social”, composto pelas iniciativas atomizadas de pessoas e pequenos coletivos de agentes. Uma fé traduzida em posturas afirmativas, no diagnóstico mágico que aponta para um movimento em curso, uma ‘revolução’ projetada no futuro e simultaneamente celebrada por seus resultados já alcançados. Uma espécie de “utopia pragmática”, sustentada pela estratégia de tornar visíveis as iniciativas consideradas exemplares.



»Análise de casos do empreendedorismo social no Brasil: Do mercado de ideias à volta ao mercado tradicional –a publicidade de Chivas Regal

»Um caso recente, que serve à reflexão sobre os deslocamentos e incorporações do discurso do empreendedorismo social e sua aproximação com o mundo das celebridades, dos novos olimpianos (Morin, 2011) relacionados ao espírito do capitalismo como discute Ehrenberg, (2010), é a iniciativa da marca internacional de uísque Chivas. A noção de olimpiano, originalmente desenvolvida por Morin para tratar das estrelas correspondentes à cultura de massas, como as estrelas de cinema de meados do século XX, relaciona-se com os personagens que servem de modelo, para possível projeção-identificação dos sujeitos de sua época. Ehrenberg aponta que, na atualidade, o empreendedor ocupa esse espaço de modelo de cultura, por ter associada a si uma vida heroica, pois assume riscos, representa o sucesso e o exemplo a ser seguido pelos demais. O empreendedor social, nesse sentido, é celebrizado para ‘inspirar’ as práticas da sociedade em que vive.

»Chivas desenvolve, a partir de 2014, uma campanha mundial, desdobrada em ações locais, em torno da imagem do empreendedor social. O Brasil está entre os países escolhidos para compor esse mosaico de histórias de vidas exemplares (Buonanno, 2011), conectadas com o universo simbólico da marca. O slogan clássico de Chivas, “Live with Chivalry”, ou viva com cavalheirismo, transporta os códigos de distinção aristocrática em tempos passados para nossos dias. O discurso publicitário relaciona o consumo do uísque com um comportamento cavalheiresco de pessoas que iriam ‘contra a corrente’, no sentido contrário da multidão. O homem de Chivas não é um qualquer, mais um na ‘massa’; sua superioridade é sugerida pela nobreza de seus atos e refinamento de seus gostos, representados em imagens que aliam capital econômico e cultural. Poder simbólico e econômico que subentendem o compartilhamento do gosto por Chivas como elo comum.

»A relação da marca Chivas com o empreendedorismo social é uma iniciativa muito recente, e bastante curiosa na sua associação com esse campo. O filme global da campanha, intitulado ‘Vença do jeito certo’ lançado em novembro de 2014, Chivas Regal (2014) –uma espécie de manifesto da marca–, estabelece a equação entre o sucesso e o ‘propósito’, termo recorrente no discurso associado à noção de bem comum. Um ator negro [NOTA 6: Trata-se de Chiwetel Ejiofor, ator principal do filme 12 years of slave, produção norte-americana de 2013, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2014, entre outros prêmios.], trajando blazer e camisa branca, em um ringue de boxe (cenário de luta, alegoria da competitividade do mercado capitalista), movimenta-se de um lado a outro e dialoga com a câmera, olhando para o observador construído pela mensagem. Seu discurso é muito explícito na significação do sucesso com um cariz social: “Dinheiro. Que função ele tem, se não para fazer o bem? [...] Nos tornamos a mudança que o mundo deseja ver”.

»Imagens de personagens que vão traduzir essa estratégia localmente aparecem no filme, como é o caso do ator brasileiro Marcos Palmeira, proprietário da Fazenda Vale das Palmeiras, dedicada à produção de alimentos orgânicos: “Pra mim é fundamental, fazer o lucro e fazer o bem. Eu acho que esse é o casamento do sucesso”. Sua fala é sucedida pelo ator do início, que continua: “Isto é Chivalry. Viver não como ‘eles e nós’ mas como ‘todos nós’”. Mais adiante, surge uma pergunta na tela, em fundo preto e letras garrafais: “Se não a gente, então quem?”. A frase final do filme é: “Desta vez, nós venceremos do jeito certo”, sucedida do slogan tradicional da marca, “Live with Chivalry”. Há um paradoxo fundamental, na oscilação entre a perspectiva igualitária, o “todos nós”, mencionada rapidamente, e a afirmação dos eleitos, da distinção, do “nós” vocacionado ao sucesso ‘com cavalheirismo’. O tom imperativo do discurso é a convocação para que esse grupo seleto assuma seu papel de liderança, de ascensão sobre os demais.

»O representante desses líderes visionários, vencedores que obtêm o sucesso do jeito certo, na articulação brasileira da campanha é o ator Marcos Palmeira (mencionado acima), apresentado como modelo de empreendedor social. A página da rede Facebook da marca Chivas Regal Brasil traz a ‘timeline biography’ do ator, a sua ‘história de vida’ - na verdade, uma narrativa mítica que mostra o ator como um ser despertado para uma vocação, que alia sensibilidade, iniciativa e ousadia. Chivas utiliza a imagem do galã, conhecido nacionalmente por atuar em telenovelas da maior rede de televisão do Brasil, a Rede Globo, como garoto propaganda para afirmar a dimensão moral, o caráter do homem de negócios ‘do bem’ sobreposto à imagem do empreendedor social.

»Na leitura de Chivas, mais do que resolver problemas sociais, o modelo agora é o do homem de negócios bem sucedido que promove também ‘um impacto social positivo’. A narrativa do herói mostra como o ator de sucesso, originário de um extrato social favorecido economicamente para os padrões brasileiros, ousa arriscar em um projeto, um ‘sonho’: ser proprietário de uma fazenda e lá instalar a produção de alimentos orgânicos, de forma sustentável, incluindo a comercialização dos produtos em loja própria. O despertar de seus ideais se dá pelo contato, ainda na juventude, com uma tribo indígena. Essa inspiração, a ‘semente empreendedora social’, é apresentada como a grande lição de vida para que siga sua trajetória heroica, ao enfrentar todos os obstáculos pelo caminho, até chegar ao momento atual, no qual é celebrado como o exemplo vitorioso do homem que faz negócios, tem um propósito, obtém lucro e se preocupa com o lado social de sua atividade. Basicamente, o que está em questão na iniciativa de Marcos Palmeira e sua fazenda é uma lógica de fair trade, quer dizer, um negócio justo e vantajoso ‘para todos’, ao menos no plano discursivo. Nada que ultrapasse os limites de seu empreendimento, nenhum projeto de sociedade que evoque a dimensão política da transformação social. Em síntese: cuidar de si e ‘pensar no outro’.

»Na campanha analisada, o sucesso ainda se mantém como paradigma do imaginário liberal. O self made man é santificado por suas obras, na releitura do espírito protestante discutido por Weber (2004). O lucro e o sucesso aliados a ‘fazer o bem’, como oferecer um produto ‘melhor’ para seus clientes, assistência dentária a seus funcionários, cuidar da sustentabilidade e do equilíbrio ambiental em sua própria propriedade. O imaginário da transformação social, cooptado pelo mercado, é exemplar na comunicação da marca de uísque Chivas Regal e sua ressignificação do conceito de empreendedor social:

»“Empreendedores que sabem que um negócio próprio pode ser lucrativo, mas também pode (e deve) fazer bem para os outros. E vão atrás de seus sonhos.

»Chivas acredita que os empreendedores sociais representam o sucesso no século XXI. E suas histórias merecem ser contadas. Por isso, escolhemos lançar no Facebook de Chivas a biografia de Marcos Palmeira, agricultor orgânico e ator. Dedicação, cavalheirismo, generosidade e coragem são as bases dessa história de sucesso! Cheers!” [NOTA 7: Publicado na página da Chivas Regal Brasil do Facebook no dia 23 set. 2014.]


»Chivas propõe a definitiva sobreposição entre os termos ‘empreendedor’ e ‘empreendedor social’, abolindo a diferença que os separava em termos conceituais: o objetivo principal de atender à resolução ou amenizar um problema social é ultrapassado pelo sonho de um negócio lucrativo, mas que ‘pode (e deve) fazer bem’, sem que o ‘bem’ tenha qualquer compromisso com uma efetiva transformação da sociedade.

»O uísque se posiciona como símbolo do sucesso de quem faz bons negócios e tem o poder de cooptar para sua iniciativa a aura do ‘bem comum’. Como revela uma das frases de Marcos Palmeira em sua ‘timeline biography’: “Se o meu negócio for lucrativo e, ao mesmo tempo, puder gerar impactos positivos na vida das pessoas, me considero um vencedor”.»

»Referências

»Angenot, M. (2010). El discurso social: los limites históricos de lo pensable y lo decible. Buenos Aires: Siglo XXI.

»Atados (s. d.) Disponível em https://www.atados.com.br/sobre

»Boltanski, L., & Chiapello, È. (2009). O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes.

»Bourdieu, P. (2009). O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand.

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enero 12, 2016

La mujer caída en el discurso literario mexicano del XIX



Martha Elena Munguía Zatarain
«La imagen de la mujer caída en algunas obras de la literatura mexicana»

Nóesis. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades
vol. 25, n.º 49, 2016

Nóesis. Revista de Ciencias Sociales y Humanidades | Universidad Autónoma de Ciudad Juárez | Instituto de Ciencias Sociales y Administración (ICSA) | Ciudad Juárez | Chihuahua | MÉXICO


Extracto de páginas 182-183 y 200-202 del artículo en PDF




«En la creación de una obra literaria confluyen múltiples discursos que se gestan en las disciplinas científicas, en las iglesias, en las charlas familiares, en los discursos políticos y morales que día a día se pronuncian.

»El arte verbal construye sus sentidos en esa heterogeneidad de visiones, las organiza, las pone a discutir y conforma una unidad que ofrece un punto de vista particular sobre el mundo, de ahí la complejidad de las obras literarias y por eso lo impertinente de querer reducir el sentido a una de las perspectivas, a una de las orientaciones filosóficas o religiosas que palpitan en su seno. Lo que sí es indiscutible es que la literatura labra imágenes artísticas que regresan a la vida social de donde las toma, pero regresan reelaboradas, con mayor riqueza significativa.

»No hay más que pensar en el loco, por ejemplo, que desde siempre se ha paseado por las calles de todos los pueblos y ciudades del mundo, pero sólo la literatura ha sabido verlo en profundidad y por ello es la única que ha sido capaz de llevarlo a lo más alto de sus posibilidades significativas; ahí está el Quijote como el ejemplo paradigmático de toda la poesía que puede encerrar la creación artística de un loco universal.

»Quiero analizar en este artículo algunos aspectos relacionados con el motivo de la mujer caída por la enorme importancia que ha tenido para la literatura mexicana, no sólo en lo temático, sino en tanto creación de una de las imágenes artísticas cuyas resonancias en la vida social han sido extraordinarias. La indagación de las formas en las que se ha construido esta imagen puede arrojar luces acerca de la conflictiva relación del arte verbal con el mundo social concreto en el que vive, del que se alimenta y que a su vez nutre. Centraré mi atención en algunas obras literarias escritas en el siglo XIX, principalmente, porque es en este momento en el que se forja la imagen y adquiere su máximo esplendor, aunque tenga sus derivaciones a lo largo del siglo XX, sobre todo en el cine. El presente trabajo no tiene pretensiones de exhaustividad, pues es demasiado amplio el material que podría ser objeto de estudio, de ahí que solamente haré alusión a algunas obras que han sido importantes en nuestra historia literaria y que han aportado una visión particular en la elaboración de la imagen de la mujer caída. Por lo demás, debo señalar que no pienso que esto haya sido un fenómeno exclusivo de México: todo lo contrario, se trata de un verdadero fantasma que recorrió prácticamente todas las literaturas occidentales. ¿Cómo y por qué encendió la imaginación poética la vida de las mujeres prostituidas? ¿De qué está hecha la imagen de la mujer caída? ¿Por qué esa efusión en un mundo que ponderaba tanto la decencia, el pudor, la abnegación y la maternidad como fin supremo de la mujer? ¿Fue sólo la atracción morbosa de bohemios románticos que enfebrecidos iban a los burdeles a celebrar el lado oscuro y silenciado de la vida, o lo hacían porque en realidad, como señalaba a principios XX Luis Lara y Pardo, [NOTA 1] ignoraban las terribles consecuencias económicas y sociales que traía aparejado el fenómeno? Voy a intentar trazar algunas de las posibles rutas de indagación de esta faceta de nuestra literatura.

»Se han hecho ya muchos estudios donde se analiza el problema del ejército de mujeres empobrecidas que a lo largo del siglo XIX no tenía más remedio que salir a las calles a buscar su sustento, ofreciendo servicios sexuales, por las condiciones de extrema explotación en las fábricas, en las tabacaleras, en el servicio doméstico, por la falta de educación y de perspectivas para alcanzar una vida medianamente satisfactoria. El hambre, la indigencia, la orfandad son realidades que empujaron a muchas mujeres a lanzarse a la prostitución; esto lo alcanzaron a ver con suma claridad algunos de los escritores del siglo XIX y así lo consignaron en algunas de sus páginas.

» [...]

»Como puede apreciarse en este sucinto recorrido del trayecto de la mujer caída que fue conformando la literatura, desde el siglo XIX hasta llegar al XX, ha habido dos motivos fundamentales alrededor de los cuales se presentan múltiples variaciones. Primero: la mujer caída como una víctima que debe suscitar la compasión y conmover a los lectores piadosos. Todo ángel caído es resultado del engaño de hombres poco escrupulosos que la abandonan una vez deshonrada, lo que la deja sin ninguna posibilidad de conseguir un matrimonio conveniente; o bien, ha sido orillada a la prostitución porque la pobreza le cerró los caminos de la decencia. El segundo motivo es el de la minuciosa delectación en la vida suntuosa y de placeres que vive la mujer triunfadora con su cuerpo encanallado. Los literatos decimonónicos decidieron rodear a la cortesana de vinos caros, sedas crujientes, cojines mullidos con el propósito de hacer más contundente y dramática la caída final. La literatura no permitió la entrada a sus páginas de la prostituta proletaria, callejera o de burdeles miserables, sino hasta muy avanzado el siglo XX, con la escritura de Revueltas o más tardíamente con los cronistas de la ciudad monstruosa, como Armando Ramírez. [NOTA 6]

»Entre estos dos polos emerge una ambigüedad constante que casi ningún escritor pudo eludir: por un lado, está la empatía compasiva por esa mujer víctima de su circunstancia y, por otro, el rechazo temeroso a quien se imaginan poderosa y destructiva por su potencial demoniaco. La mujer caída resulta amenazante, por eso se le niega la voz y los autores irrumpen en el mundo ficticio para imponer la suya, para juzgarla y para cerrarle cualquier resquicio de redención, como no sea después de muerta, luego de la segunda y definitiva caída en la enfermedad, la cárcel y una agonía pavorosa. [NOTA 7] A veces se vela esta etapa, pero siempre está ahí latiendo, recordándole al lector que no puede haber final feliz en estos casos, ni puede restaurarse la armonía que se rompió con la primera caída de la muchacha. La armonía y el orden sólo se restablecen con la muerte.

»Ahora bien, no obstante la insistencia con la que se ha señalado el dejo condenatorio que siempre aparece en estas obras, vale la pena destacar el hecho de que la literatura, a pesar de todo, no estuvo nunca sometida a los dictados de la moral ni se dejó supeditar a los dictámenes de la ciencia, y la prueba está en que desde muy diversos frentes se intentó hacer callar a los escritores porque no se decidían a señalar con el dedo flamígero a la mujer pública; se les censuraba por la simpatía que destilaba en las páginas de novelas y cuentos, aunque fuera una simpatía atravesada por la lástima paternal. Los discursos hegemónicos hubieran deseado una cruzada homogeneizada para desterrar el vicio y el crimen, aunque reconocieran la necesidad social de la prostitución.

»Les parecía que la literatura no hacía sino cubrir con un velo embellecedor la vida de estas mujeres condenables y por tanto, en el fondo, se convertía en una invitación a llevar una vida licenciosa. Aunque los autores de esta etapa no pudieran otorgarle voz y tuvieran que condenar a la prostituta, fueron construyendo los caminos para hacer posible la entrada a la literatura de visiones encontradas y sobre todo, lograron crear un impresionante mosaico de imágenes palpitantes que todavía siguen siendo referentes en nuestro universo cultural, sin los cuales es imposible entender la vida en México en los dos siglos pasados.»



[Notas]

»[NOTA 1] Uno de los estudiosos más importantes del fenómeno de la prostitución en el México porfiriano.

»[NOTA 6] En su Crónica de los chorrocientos días del barrio de Tepito (Ramírez, 1973: 1973), deja un espacio para relatar la historia de una prostituta de los bajos fondos y el relato lo hilvana la voz de ella.

»[NOTA 7] Mariano Azuela también escribió por lo menos tres obras en las que recrea la decadencia de sendas mujeres caídas en la prostitución (María Luisa, Impresiones de un estudiante y la Malahora). En la primera va sembrando una serie de aseveraciones que revelan su absoluta pertenencia al horizonte ideológico del porfiriato: “Así como al despertar de sus sentidos no había podido resistir la influencia de su raza degenerada, detenida solamente por artificios de educación, al encontrar en el alcohol el remedio de sus penas, una vez dado el primer paso, nada ni nadie sería capaz de contenerla; y empujada por la maldita herencia quedaría hundida para siempre. Su voluntad de hembra valiente y noble en las tormentas de la vida cayó rendida al primer golpe asestado por su sentimiento netamente humano; pero el de maza de su amor infortunado le arrancó la última resistencia. Y como pluma flotante, siguió los impulsos del huracán” (Azuela, 1993: 745). En Impresiones de un estudiante se detiene a recrear con especial atención el momento de la enfermedad incurable de la mujer (tuberculosis) de la que morirá sin remedio. En ningún caso hay salvación para esas mujeres víctimas de su herencia de sangre y de sus imprudencias.



»Referencias

»Azuela, Mariano. 1993. María Luisa, Impresiones de un estudiante. Obras completas, tomo II. México: Fondo de Cultura Económica.

»Ramírez Rodríguez, Armando. 1973. Crónica de los chorrocientos mil días del barrio de Tepito. México: Novaro.»